A QUESTÃO DA IDENTIDADE CABOVERDIANA ATRAVÉS DA POESIA – A EVASÃO E A ANTI-EVASÃO
Rubens Pereira dos Santos – UNESP
As primeiras manifestações literárias de Cabo Verde surgiram em meados do século XIX. Não se pode falar ainda de uma literatura caboverdiana. São autores de origem caboverdiana que foram para a Metrópole ou intelectuais portugueses que viveram muito tempo nas ilhas. O texto mais significativo desse período inicial foi O escravo (1856), escrito por José Evaristo de Almeida. Porém, não se via ainda a presença de uma consciência nacional, a literatura ainda estava vinculada à Europa.
Apenas a partir de 1930, um pequeno grupo de autores — Eugênio Tavares, José Lopes e Pedro Cardoso — começa a pesquisar e compilar o folclore, a poesia popular, a música e a dança dos caboverdianos. Já imbuídos de um forte sentimento nacional, estes homens contribuíram decisivamente para a compreensão do que é ser caboverdiano. Pesquisando as tradições orais do arquipélago sob a ótica estética e etnocultural, Eugênio Tavares - as Mornas - e Pedro Cardoso elaboraram um trabalho sobre o folclore de Cabo Verde. José Lopes procurou a origem da ilhas:
Já, pois, vistes, irmãos Cabo-Verdianos
Que as nossas lindas e queridas Ilhas
Contam a história dos remotos anos
Da Atlântida, da qual são filhas
(in Literaturas africanas de Expressão Portuguesa, 1987, p. 32)
A ação desses três pioneiros foi o primeiro passo para o surgimento de uma literatura vigorosa, muito expressiva e independente.
Pela primeira vez nas terras africanas de influência portuguesa se experimenta uma poesia de raiz. Uma poesia de raiz predominantemente telúrica e social (p. 88)
Assim, a literatura caboverdiana tem o seu começo. Somente com a criação da revista Claridade, em 1936. Foram anos de uma persistente luta contra as intempéries. Não havia, ainda, uma clara luta contra o domínio lusitano.
As ex-colônias portuguesas passaram por períodos distintos. Num primeiro momento, a colonização se fez consoante todas as outras colonizações. O colonizador veio e se impôs ante o nativo. Gilberto Freyre sempre creditou à colonização portuguesa um diferencial em relação aos outros colonizadores: o português era de uma capacidade de adaptação muito grande e toda uma tolerância em relação aos colonizados, daí o seu domínio ser mais ameno e sempre voltado para as questões religiosas. Contudo, o simples fato de se impor a um povo, de subjugá-lo, não importa a quais artifícios usados, já se torna humilhante para o povo submetido.
Com a conquista consolidada, houve uma certa abertura, mas como já se disse não há felicidade com opressão. O povo colonizado sempre se sentirá diminuído, o máximo que ele pode numa situação de colônia é atingir certas posições da sociedade, mas nunca terá o poder político. De certa forma, esse povo não tem identidade. Por mais altivez que tenha, sempre esbarrará na questão do poder, na limitação de seu poder.
Sentimos isso na literatura africana de expressão portuguesa. Os Angolanos, a par da luta contra o regime colonial, encararam a questão da sua identidade com o movimento “Vamos descobrir Angola?”.
Cabo Verde também teve o seu momento de busca da sua identidade. Talvez pela própria situação econômica e social, os caboverdianos sentiram a necessidade de descobrir ou conhecer o seu modo de ser. Afinal, das colônias africanas, Cabo Verde distinguia pela dificuldade freqüente em relação à questão climática, a seca cíclica, o seu povo sempre às voltas com o problema da fome etc. Apesar e a despeito de tudo isso era um povo que possuía características bem marcantes. Fala-se na morabezacaboverdiana, um sentimento misto de ternura e melancolia, próprio do ilhéu. A presença dessa ternura nas mornas, nos poemas e canções das ilhas reforça aquela idéia de afabilidade, herança de Portugal. Os intelectuais caboverdianos viam na morabeza um diferencial psicológico importante, pois o objetivo maior era conhecer o homem ilhéu em toda a sua plenitude. A revista Claridade surgiu com este objetivo. Divulgar a cultura do Arquipélago era a proposta. Mais do que fazer diletantismo com a literatura, pretendiam “levar em frente um projeto pelo qual fosse possível arregimentar esforços para a defesa dos interesses nacionalistas e populares do arquipélago”. (in Literatura calibanesca, “As Certezas da Claridade e as influências da Sombra”, p. 105).
Esse conhecer o caboverdiano do grupo da Claridade foi um passo para o afastamento da visão preconceituosa que se tinha do ilhéu como um ser apático, afinal ele era uma vítima da natureza
Evadir-se (tem sido este o seu destino) para se libertar da deficiência ambiente, procurar a luta onde ela se apresenta num aspecto mais humano e compensador, é, de qualquer modo, uma manifestação contrária à apatia, que engloba o desejo de acção, o mesmo que dizer de progresso, sendo este último entravado em parte por reacções puramente acidentais.
São afirmações de Manuel Lopes na coluna da revista Claridade, a emigração - pelas questões de sobrevivência e o espírito de aventura são ingredientes constantes do ser caboverdiano. O espírito de aventura foi herdado diretamente do português - nós, brasileiros também temos esta característica e a evasão torna-se uma solução:
Evasão será então a solução comum... Dessa forma, temos, a peu-prés, a genealogia psicofísica dos caboverdianos. O caboverdiano, na visão de Manuel Lopes, é plástico e maleável. A chamada apatia e a tristeza do caboverdiano torna-se um aspecto positivo da alma crioula.
Apatia e tristeza que aparecem na poesia caboverdiana, em seus primeiros momentos. A literatura modernista brasileira teve uma importância fundamental nessa linha temática, em especial a poesia de Manuel Bandeira. Os primeiros números da revista Claridade revelaram a simpatia que os poetas caboverdianos nutriam pelos modernistas brasileiros. Manuel Lopes, Osvaldo Alcântara e Jorge Barbosa viam nos versos de Bandeira aquela melancolia, aquela ternura e aquele lirismo que eles sentiam ser a expressão do homem caboverdiano. Ribeiro Couto e Jorge de Lima foram os que mais motivaram os ilhéus. Assim, Manuel Bandeira tornou-se o responsável por um dos momentos mais luminosos da literatura caboverdiana. A temática da Pasárgada criou em Cabo Verde duas vertentes: uma, chamada de pasargadismo, que produziu uma obra poética de importância; outra, chamada de antipasargadismo, que representava a outra face da moeda. Os poemas escritos dentro da temática da Pasárgada também são conhecidos como poemas da evasão e poemas da anti-evasão. Manuel Bandeira, dessa forma, acendeu o estopim para a criação de inúmeras poesias, destacando-se no lado pasargadista o poeta Osvaldo Alcântara, pseudônimo usado por Baltasar Lopes, que escreveu estes versos:
Saudade fina de Pasárgada...
Em Pasárgada eu saberia
Onde é que Deus tinha depositado
Omeu destino...
E na altura em que tudo morre...
(cavalinhos de Nosso Senhor correm no céu;
a vizinha acalenta o sono do filho rezingão;
Tói Mulato foge a bordo de um vapor;
Ocomerciante tirou a menina de casa;
Os mocinhos de minha rua cantam:
Indo eu, indo eu,
A caminho de Viseu...)
Na hora em que tudo morre,
Esta saudade fina de Pasárgada
É um veneno gostoso dentro do meu coração.
A revista Claridaderealmente funcionou como veículo propulsor da poesia caboverdiana. Jorge Barbosa, poeta “claridoso” escreveu poemas de características pasargadistas, destacando o aspecto melancólico da paisagem do Arquipélago:
Quem aqui não sentiu
Esta nossa
Fina melancolia?
Não a do tédio
Desesperante e doentia.
Não a nostálgica
Nem a cismadora.
Esta nossa
Fininha melancolia
Que vem não sei de onde.
Um pouco talvez das horas solitárias
Passando sobre a ilha
Ou da música
Do mar defronte
Entoando uma canção rumorosa
Musicada com os ecos do mundo.
Quem aqui não sentiu
Esta nossa
Fininha melancolia?
A que suspende inesperadamente
Um riso começado
E deixa um travor de repente
No meio da nossa alegria
Dentro do nosso coração,
A que traz à nossa conversa
Qualquer palavra triste sem motivo?
Melancolia que não existe quase
Porque é um instante apenas
Um momento qualquer.
(Caderno de um ilhéu)
Como podemos observar nos poemas acima, há o predomínio daquele lirismo tão característico da poesia de língua portuguesa, aliada àquela melancolia (morabeza) caboverdiana. A “fininha melancolia” que consiste em sentir saudade daquilo que não se tem. Aliás, são muito expressivos os versos de Manuel Lopes:
Que teu irmão que ficou
sonhou coisas maiores ainda,
mais ricas e mais belas que aquelas
que conheceste...
Crispou as mãos à beira do mar
e teve saudades estranhas de terras
estranhas
como bosques, como rios, como outras
montanhas,
- bosques de névoa, rios de prata,
montanhas de oiro —
que nunca viram teus olhos
no mundo que percorreste....
(Poemas de quem ficou)
Já falamos da importância da evasão para a poesia caboverdiana, entretanto houve um grupo de poetas que discordava desse caminho utópico, surgindo uma poesia de oposição ao pasargadismo, poesia esta que destacava o aspecto telúrico do homem ilhéu, o seu desprendimento e coragem para enfrentar os problemas naturais perversos. Ovídio Martins foi o poeta que se destacou escrevendo versos que representavam o grito de revolta do eu-poético que se negava a ir para a Pasárgada:
Pedirei
Suplicarei
Chorarei
Não vou para Pasárgada
Atirar-me-ei ao chão
E prenderei nas mãos convulsas
Ervas e pedras de sangue
Não vou para Pasárgada
Gritarei
Berrarei
Matarei
Não vou para Pasárgada
Outro poeta de tendência antipasargadista foi Onésimo Silveira. Não tão teatral quanto Ovídio Martins seus poemas possuem uma grande força telúrica. Em Hora Grande, o poeta ressalta a importância de sua terra, sua obra representa o grito pela liberdade.
1
O mar sairá
Das nossas ilhas
Das nossas ruas
Das nossas casas
Das nossas almas...
O mar irá para o mar
E limpos finalmente do lodo das algas
E libertos do sal de nosso sorriso de enteados
Seremos frutos de nós mesmos
Nascendo da barriga negra da terra
2
Os náufragos do lago da nossa quietação
Erguerão os seus braços de todas as cores
E as suas mãos se fartarão
Da luz de um poente maduro!
O negreiro estará perdido na légua do tempo
Porque a alma das nossas vozes
Não morrera no fundo dos porões...
A fome não se alimentará da fome
E voaremos nas asas do Sol
Com o destino na palma da mão!
3
Nas feridas do seu parto
As raízes do nosso umbigo beberão a seiva
E no ventre da “mamãe terra”
Germinarão as sementes das nossas certezas
E nos embriagaremos da carne dos seus frutos...
As crianças nascerão sem metas nos olhos
E as mãos sujar-se-ão
Do mel do nosso olhar...
As crianças serão as crianças!
Negras e loiras e brancas
Serão pétalas da mesma flor...
O sonho do poeta era ver a felicidade brilhando nos olhos de todos, a utopia caboverdiana não estava na Pasárgada distante e etérea, ela estava ali naquelas ilhas, bem perto de todos.
O poema que acabamos de ler revela um outro aspecto importante da literatura caboverdiana: a temática do mar. O mar é a visão constante do homem caboverdiano e os versos que destacam a sua presença são cheios de melancolia e de lirismo:
Regresso
Navio aonde vais
Deitado sobre o mar?
Aonde vais
Levado pelo vento?
Que rumo é o teu
Navio do mar largo?
Aquele país talvez
Onde a vida
É uma grande promessa
E um grande deslumbramento!
Leva-me contigo
Navio.
Mas torna-me a trazer!
(Cadernos de um ilhéu) (Jorge Barbosa)
A referência ao mar, o “convite” para se conhecer outras terras, a nostálgica melodia da morna que simboliza o dramae amelancolia do homem caboverdiano. O mar, este misterioso elemento “que nos dilata os sonhos e nos sufoca desejos”.
Ai a cinta do mar
que detém ímpetos
ao nosso arrebatamento
e insinua
horizontes para lá
do nosso isolamento!
Esse poema lembra o Mar Portuguez, de Pessoa:
Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão resaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Está claro que o “mar caboverdiano” não é o mesmo “mar português”, mas há um ponto em comum: tanto um quanto o outro representa o imponderado, a possibilidade de uma partida sem volta. Enfim, a poesia de Jorge Barbosa é reveladora da ambigüidade que vive o ilhéu, entre o desejo de partir e a vontade de ficar:
Mar!
Dentro de nós todos
no canto da Morna
no corpo das raparigas morenas,
nas coxas ágeis das pretas,
no desejo da viagem que fica em sonhos de muita gente!
Este convite de toda a hora
que o mar nos faz para a evasão!
Este desespero de querer partir
e ter que ficar!
Finalmente, é bom lembrar que tanto o antipasargadismo como o pasargadismo foram momentos poéticos importantes para a literatura caboverdiana e representam, de forma clara, a estreita ligação com a poesia modernista brasileira. A evasão e seu contraponto a antievasãoforam a expressão poética desse período. Mário de Andrade, em Antologia temática da poesia africana I — (na noite grávida de punhais) salienta a posição de Osvaldo Alcântara “que viveu o drama da alternância entre a fuga para Pasárgada e a adesão à Ressaca. Vejamos, para finalizar, um fragmento do poema de Alcântara, Ressaca, que pode ser considerado um poema não-pasargadista:
Venham todas as vozes, todos os ruídos e todos os gritos
venham os silêncios compadecidos e também os silêncios satisfeitos;
venham todas as coisas que não consigo ver na superfície da sociedade dos homens;
venham todas as areias, lodos, fragmentos de rocha
que a sonda recolhe nos oceanos navegáveis;
venham os sermões daqueles que não têm medo do destino das suas palavras;
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Eu estarei de mãos postas, à espera do tesouro que me venha na onda do mar...
A minha principal certeza é o chão em que se amachucam os meus joelhos doloridos,
Mas todos os que vierem me encontrarão agitando a minha lanterna de todas as cores
Na linha de todas as batalhas.
(in Modernos poetas cabo-verdianos, 1961)
Referências Bibliográficas:
ANDRADE, Mário. Antologia temática da poesia africana. Lisboa: vol. I, Sá da Costa, 1975.
FERREIRA, Manuel. A aventura crioula. Lisboa: Ulisséia, 1967.
MARTINS, Ovídio. Gritarei, berrarei, não vou para Pasárgada. Rotterdan: Caboverdianidade, 1973.
SILVEIRA, Onésimo. Hora Grande. Nova Lisboa: Bailundo, 1968.